quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

mutilam

de todas coisas que vem acontecendo, as que não acontecem são as que mais me machucam. as que já se foram já não mutilam mais, mas todo dia que não vivo a vida que queria, me vejo abandonada sobre a beira do abismo de uma vida que não conhecia. não assim.
das minhas riquezas, a sobrevivência é o que me resta, conto moedas pra comer, gasto todas elas por angústia.
há muito já não me pegava vivendo em cercas tão fechadas, mãos atadas e pernas livres para trabalhar. não pratico as mudanças que minha salvação me ofereceu, meu compromisso é a fuga, e por alguns momentos sinto como se nunca tivesse saído do mesmo lugar. minha cabeça lateja e o que mais posso fazer se não esperar que as pulsações parem?
minha vida não é só minha, e espero que o que não depende de mim surja com urgência, a minha urgência de viver uma vida maior.
quero quitar minhas dividas, não ter medo da fome e do dia de amanhã. da água que vou beber, do banho quente que quero tomar, e do pão que alimenta o corpo.
quantas coisas mais preciso aprender com tantas barreiras pelo caminho?
sou inconsequente e estou ciente, mas esperava que de alguma maneira, a vida pudesse relevar meus exageros e dentro dessa trilha, ainda houvessem afagos. tenho tanto medo e estou só, ainda que não. minhas angústias são só minhas e eu espero de verdade que as portas se escancarem e que eu tenha a chance de ser alguém diferente enquanto ainda jovem.
jovenzinha, imatura, que pode desbravar o mundo de uma maneira mais simplificada. eu acredito que as coisas podem ser melhores. e eu aguardo por esses dias, mas por hoje, o que eu mais quero poder fazer é me deitar e chorar as lágrimas que preciso derramar. 

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